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Querido Heinz

Chapter 5 · Gluttony · Alexandre Ribeiro

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Chapter 5 · Gluttony

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No dia seguinte, Amina não sentou perto de mim. Isso foi bom. Eu teria estragado qualquer silêncio com vontade de reparação.

Fiquei na roda da manhã como quem segura a própria língua com os dentes. A psicóloga falava sobre cuidado com o corpo. Aquilo já me deixou defensivo antes mesmo de saber por quê. Corpo, para mim, nunca foi só corpo. Era documento. Era alvo. Era fronteira. Era passaporte negado antes da entrevista. Era aquilo que entrava numa sala antes da minha voz.

Eu conhecia meu corpo como se conhece uma cidade perigosa: sabendo onde não andar sozinho, o que esconder, o que negociar, o que transformar em piada antes que alguém transforme em arma.

Por isso, quando a psicóloga disse “alimentação consciente”, quase ri. Consciente. Como se toda fome fosse falta de informação.

Foi nessa manhã que Jonas entrou. Ou melhor: foi nessa manhã que reparei nele.

Jonas já estava no hospital havia alguns dias, mas certas pessoas sabem desaparecer mesmo ocupando espaço. Ele tinha talvez vinte e poucos anos. Alemão. Magro de um jeito que parecia desenhado com borracha. Ombros estreitos, braços compridos, olhos enormes, pele quase transparente. Usava a roupa do hospital como se ela fosse grande demais não para o corpo, mas para a existência dele.