A primeira coisa que aprendi no hospital foi que ninguém grita sem motivo.
Pode parecer mentira, porque lugar de crise vive cheio de grito que parece sair do nada. Gente berrando no corredor. Gente batendo na porta. Gente xingando enfermeiro. Gente chorando no telefone como se a pessoa do outro lado ainda tivesse obrigação de salvar alguma coisa.
Mas nada ali saía do nada.
No Hospital Evangélico Rainha Elisabeth Herzberge, todo grito tinha história. O problema é que história demora. E hospital não gosta de demora. Hospital gosta de sintoma. Sintoma cabe em papel. História não.
Acordei na Tagesklinik KJP4, Haus 8, com o corpo pesado dos remédios, como se alguém tivesse colocado areia dentro dos meus ossos. A boca seca. A cabeça cheia de algodão. Quando tentei levantar, o mundo demorou meio segundo a mais para me acompanhar.
Meio segundo parece pouco. Mas, para quem acabou de atravessar uma porta verde, perder meio segundo de realidade já é quase cair de novo.
O quarto tinha cheiro de desinfetante, suor antigo e uma tristeza que não vinha só de mim. A janela deixava entrar uma luz pálida, luz de Berlim, luz que ilumina sem aquecer.
Eu ainda estava vivo. Isso era bom. Eu ainda estava preso. Isso era discutível.
Na porta, uma enfermeira bateu duas vezes antes de entrar. Bateu por educação, não por necessidade. A porta não era exatamente minha. — Bom dia, Miguel. Como você se sente?
