No começo, a porta abriu. Não foi metáfora.
Antes do hospital, antes da polícia, antes da roupa perdida, antes que alguém tentasse escolher uma palavra menor para guardar o que aconteceu, havia uma porta. Verde.
Alta demais. Antiga demais. Uma dessas portas de Berlim que parecem ter sido feitas para o mundo atravessar de uma época para outra sem pedir licença.
Diante dela havia três pessoas de boina vermelha.
Não sei se eram homens ou mulheres. Não do jeito comum. Eram brancas como quem já não pertence mais à cor, como quem atravessou tanta coisa que virou presença. As boinas tinham um vermelho que eu nunca esqueci. Vermelho de aviso. Vermelho de sangue lembrado. Vermelho de caminho aberto com custo.
Uma delas disse: — Es lebe die Freiheit. (Viva a liberdade)
Meu corpo entendeu antes da minha cabeça que aquilo não pertencia ao mundo comum. A cabeça veio depois, atrasada, procurando explicação em alemão, em português, em religião, em cansaço, em maconha, em saudade, em racismo, em Deus sabe lá o quê.
Nenhuma palavra chegou inteira.
Só consegui responder: — Laroyê, Exu. Mojubá.
Agradeci pela abertura dos caminhos. E entrei.
Foi a primeira vez que vi gente que não estava mais neste plano.
