Depois de Farid, comecei a acreditar mais em mim. Esse foi o perigo.
Não como quem acorda santo, guia, profeta ou qualquer coisa ridícula assim. Foi pequeno. Primeiro veio a sensação de que eu tinha feito algo certo. Depois a sensação de que talvez eu estivesse ali por algum motivo. Depois a pior de todas: a sensação de que eu conseguia enxergar a ferida dos outros melhor do que eles mesmos.
A soberba raramente chega com coroa. Às vezes chega vestida de cuidado.
Naquela tarde, sentei na sala comum tentando parecer paciente. Havia uma televisão ligada sem som, um jogo de cartas faltando duas cartas, uma planta de plástico com poeira nas folhas, uma mesa onde alguém tinha deixado um copo de chá pela metade. O hospital era cheio dessas pequenas desistências. Objetos começados e largados, frases interrompidas, pessoas esperando alguém dizer o que vinha depois.
Eu também esperava. Mas fingia que não.
Meu corpo estava ali, mas minha cabeça atravessava corredores invisíveis. Pensava em Farid levando chá de cardamomo para a irmã. Pensava em Heinz sentado na cadeira vazia, falando como se tivesse atravessado a história só para me dar conselhos no meio de um hospital psiquiátrico em Lichtenberg.
E pensava em Luz. Sempre Luz.
