O ÔNIBUS RESERVADO
"Perder o pai é uma tragédia. Perdê-lo na infância é sentir saudade não do que viveu, mas do que poderia ter vivido."
Me lembrei da frase de minha amiga, Jacira, ao organizar tudo para o funeral. Após a reunião da família na sala de casa, o mundo precisava caminhar.
Na madrugada do dia 24 de julho de 2006, eu e meus filhos sequer fechamos as pálpebras. Às 09h00, sairia nosso ônibus sentido Cemitério Vale da Paz. Sem dormir, fui de porta em porta e avisei todos os vizinhos do ocorrido. Porém, não explicitei o motivo da morte. Se de fato eles soubessem, era capaz de ninguém comparecer.
No mês de julho de 2006, Diadema enfrentou uma frente fria gigantesca, acarretando um aumento de 20% no quadro de pacientes dos hospitais. Os hospitais da cidade já não eram lá essas coisas, e com o aumento em vinte por cento, o caos foi decretado. Angenor chegou para ser atendido no meio dessa causaria. Embora estivesse com um quadro médico considerado de alto risco, ele não foi considerado um caso emergencial.
Em um corredor sujo, com mau cheiro, equipamentos enferrujados e anciões desrespeitados, Angenor teve que aguardar por doze horas em uma maca corroída por ferrugens.
