As verdades que escorrem por entre a pele das nossas pessoas não binárias, dos nossos meninos e das nossas meninas, vieram da continuidade daqueles que em plena ditadura militar, em pleno exercício do separatismo, lutaram pela vida plural e pelo direito da cor. E foi assim, enquanto aos poucos a vacina aumentava o seu efeito que Luiz desceu do ônibus no ponto final no Terminal Sacomã, e falou consigo mesmo em voz alta, sorrindo: — Pedro Vaz, pode ir de caminha que esse momento é dos mandrake maloqueiro.
Ficou combinado que eles se encontrariam na casa de Luiz, na viela no topo da Favela da Torre, na periferia da periferia do estado de São Paulo, em Diadema. Tudo foi feito do jeito que puderam. A casa de Luiz ficava na parte mais alta da quebrada, em uma viela estreita que mal cabia um carro. O chão era de pedra e as guias da calçada pintadas de verde-amarelo, resquícios dos anos da copa do mundo. A localização de seu barraco era ideal para observar a torre de energia elétrica que dava nome ao bairro, torre essa que muitos diziam ser a expressão máxima da Bélle Époque de Diadema, por evidentemente ter influenciado a arquitetura de Paris.
