Depois de Stefan, comecei a desconfiar da minha própria bondade. Não de uma vez. Bondade é uma palavra escorregadia. A gente diz que quer ajudar, quer escutar, quer cuidar, e quase nunca pergunta o que essa ajuda alimenta dentro da gente.
Naquela manhã, acordei com a sensação de que o hospital tinha mudado de temperatura. Talvez fosse só o remédio. Talvez fosse a falta de maconha.
Talvez fosse o corpo entendendo, antes da cabeça, que eu já não conseguia fingir que estava ali apenas como alguém em crise. Eu tinha começado a ocupar outro lugar: o paciente que fala, o paciente que escuta, o paciente que traduz coisa invisível para gente quebrada, logo eu que vim da quebrada.
Farid tinha o chá. Nadja tinha o âmbar. Stefan tinha a mochila no chão. E eu tinha começado a guardar essas pequenas mudanças como quem coleciona provas. Provas de quê? Ainda não sabia. Ou sabia e não queria dizer.
